domingo, 4 de janeiro de 2026

Julio Cortázar e Fantômas - Artigo UEL

A Intermidialidade no processo criativo de Julio Cortázar com o personagem Fantômas

 

Herman Augusto Schmitz

Mestre em Letras – Estudos literários, pela UEL

E-mail: grafados@gmail.com

 

Resumo: Este artigo aborda a relação entre Literatura e Histórias em quadrinhos, usando como exemplo uma experiência do escritor Julio Cortázar com o personagem Fantômas da editora mexicana Navaro. Ele se coloca como um ator na trama e cria uma nova versão da história, misturando elementos de literatura, histórias em quadrinhos, artes visuais, história política e literatura ilustrada.

Palavras-chaves: Literatura; Quadrinhos; Intermidialidade; Julio Cortázar; Adaptação; Narratologia; América latina

INTRODUÇÃO

A representação da literatura em Histórias em quadrinhos e vice-versa pode ser vista de duas perspectivas: adaptações de obras literárias para quadrinhos e construções em quadrinhos que são consideradas obras literárias.

A adaptação de romances da literatura para Histórias em quadrinhos não foi uma prática nos primeiros anos do surgimento dessa forma de arte, no início do século XX. Isso se deve ao fato de que as Histórias em quadrinhos foram criadas no formato de pequenos blocos, chamados comic strips, para preencher espaço em jornais americanos com tiragens elevadas e tornaram-se um sucesso entre os leitores mais jovens, especialmente pelas páginas coloridas dominicais.

O sistema de publicação em tiras diárias ou semanais, exigiam roteiros mais cíclicos, semelhantes ao folhetim do início do século XIX, entretanto mais simples, com eventos repetidos e estacionados no tempo. No folhetim, há uma sequência temporal de eventos e os personagens estão submetidos às forças do tempo, nas tiras de quadrinhos, de modo geral, o ambiente narratológico é sempre o mesmo e os personagens não envelhecem.

A primeira coleção pensada em trazer a literatura para os quadrinhos foi a série americana Cassics Illustrated lançada em 1941 pelo editor da Elliot Publishing Albert Lewis Kanter. No Brasil foi editada uma pequena parte na revista Edição Maravilhosa da EBAL e depois pela Abril Jovem. Outras iniciativas semelhantes seguiram esse caminho como Literatura en CómicMarvel Classics Comics ou “Literatura brasileira em quadrinhos”, obras mais de caráter pedagógico do que artístico, que pretendem apresentar uma representação gráfica de um romance, de um ponto de vista de roteiro, utilizando o enquadramento tradicional e nem sempre dando o devido crédito ao desenhista e roteirista que realiza a transposição. Atualmente, entretanto, temos realizações ambiciosas nesse campo, especialmente em adaptações de escritores como Edgar Allan Poe, H. P. Lovecraft, Marcel Proust, por artistas como Dino Battaglia, Enrique Breccia, e Stéphane Heuet, que trouxeram uma visão pessoal nas suas transposições, além de uma arte deslumbrante.

Do lado dos quadrinhos, teremos autores em busca de uma expressão próxima da forma literária, por isso inclusive se denomina Graphic Novel (Romance gráfico) a esse tipo de criação. Como por exemplo, a saga Corto Maltese do italiano Hugo Pratt, com 32 histórias, de formato variado e publicadas sem periodicidade e por diversos editores ao longo quase 20 anos. Suas aventuras poderiam, sem dúvida, terem sido escritas por R. L. Stevenson, Herman Melville ou Jack London, sem o menor inconveniente. Existe outra situação em que o roteirista cria um personagem, embora os desenhos sejam de outros artistas, como é o caso do paraguaio Robin Wood, criador do guerreiro sumério Nippur de Lagash com a arte do argentino Lucho Oliveira, ou também o importante roteirista argentino Héctor Germán Oesterheld, criador do clássico da ficção científica em quadrinhos: “O Eternauta” com desenhos de Francisco Solano López. Ambos autores criaram personagens para além do caricaturesco, com dimensões literárias tão importantes como Julio Verne, Alexandre Dumas ou Emilio Salgari.

O Caso Julio Cortázar

Como a arte tem um formato contínuo, essa relação entre quadrinhos e literatura seguiu-se com modelos híbridos e até bastante inesperados. Para melhor entender essa relação, apresento a seguir uma espécie de “estudo de caso”, do argentino Julio Cortázar, que com o seu livro Fantomas contra los vampiros multinacionales, criou uma espécie de metaquadrinho e deu um salto para além de ambos os formatos, com uma obra única e de grande representação sobre a política na américa latina.

Júlio Cortázar (1914-1984) foi um escritor, professor e tradutor argentino, que em 1981 optou pela cidadania francesa (sem renunciar a argentina) em protesto contra a ditadura militar no seu país. A grandiosidade literária de Julio Cortázar é reconhecida mundialmente, tanto através de seus contos, sua crítica literária e também por seu romance Rayuela (O Jogo de Amarelinha), lançado em 1963, que é um marco na vanguarda literária, tanto pela sua prosa quanto no formato da leitura do romance, com sequências distintas guiadas por meio de proto-hiperlinks, onde se pode saltar pelos capítulos e podendo-se assim ler uma outra história paralela. Seus contos inauguram o gênero do Realismo mágico latino-americano, isso juntamente com Gabriel García Márquez, Mario Vargas Llosa e Carlos Fuentes. Trabalhou como tradutor profissional para a Unesco, e desse contato com a política internacional, passa a se interessar pela política sul-americana, atuando como ativista dos Direitos humanos e inclusive, doando direitos autorais de alguns de seus livros para ajudarem presos políticos na América latina. Faleceu em Paris aos 69 anos.

Fantomas é um personagem surgido inicialmente na literatura popular em uma série de romances policiais escritos em dupla por Marcel Allain e Pierre Souvestre a partir de 1911, e coincide com outro personagem de folhetim da mesma época, Arsenio Lupin de Maurice Leblanc, surgido em 1905. Enquanto este é um ladrão elegante e um mestre dos disfarces, Fantomas é sádico e com traços de sociopata. A adaptação aos quadrinhos foi realizada pela Editora mexicana Navaro através do editor Alfredo Cardona, com a ideia de usar o mesmo personagem, entretanto alterou radicalmente a versão escrita, apresentando um Fantomas de caráter heroico e sem nenhuma referência aos textos originais. Os primeiros realizadores foram Guillermo Mendizábal como roteirista e Rubén Lara Romero para os desenhos. Logo, com o sucesso da série houve um grande número de autores reconhecidos que atuavam para a Navaro por encomendas, mas sem nenhum direito autoral sobre o personagem. A série seguiu dos anos 1960 até 1980.

O Fantomas da Navaro é um sujeito mascarado por um capuz branco e luvas da mesma cor, usa uma vestimenta de gala azul escura (às vezes vermelha), chapéu coco e botas altas. Diferente dos heróis anônimos, tem a desfaçatez de anunciar os seus feitos na mídia. Vive em um refúgio secreto e altamente tecnológico em um subúrbio parisiense, e os seus auxiliares são doze belas mulheres, cada qual apelidada por um signo do zodíaco. Se de um lado ele adquiriu grande fortuna com suas ações criminosas, por outro é um grande filantropo e suas aventuras resultam em fundos para combater a pobreza e auxiliar universidades e centros de pesquisa.

Nestas histórias há sempre roubos ou fraudes internacionais, com situações dramáticas ou humorísticas. É comum mesclarem-se eventos históricos reais com fictícios, costuma também envolver nas suas tramas personalidades da vida real, como Gandhi, Hitchcock, Albert Einstein, Jane Fonda, Liz Taylor ou escritores como Julio Cortázar, Gabriel García Márques e Susan Sontag. Também utiliza grande quantidade de aforismos e citações da literatura além de referências a quadros e outras obras de arte famosas.

Fantômas é um herói típico do picaresco latino de folhetim, que se utiliza de um tom meio intelectualizado à anos 1960, sem ser panfletário e nem vanguardista do ponto de vista estético. De uma maneira indireta, pretende denunciar a globalização ou ao menos, indicar que as forças no jogo social não estão nem um pouco próximas do homem comum, mas sim, dominadas pelas grandes corporações, pela alta tecnologia e também por grupos anônimos que velam pelo patrimônio artístico e cultural da humanidade.

Figura 1 – Capas das 2 versões




Temos acima as duas capas: a versão original da história La inteligencia en llamas da série Fantomas: la amenaza elegante, episódio 201, com argumento de Gonzalo Martré e desenhos de Víctor Cruz. E a versão de Julio Cortázar publicada com o consentimento do editor, na mesma editora e com a arte de capa também de Víctor Cruz como se fosse mais um episódio da série. Por uma daquelas coisas típicas de Cortázar, temos também um bom resumo do gibi:

“La historia se llamaba La cultura en llamas [sic] y era muy de Fantomas, muy de Superman, en que de golpe se empiezan a incendiar las grandes bibliotecas del mundo: arde la biblioteca de Tokio y creen que es un accidente, luego arde la de Londres, después arde la de… la de Berkeley espero que no… y ya es el pánico. Algunos escritores están desesperados porque se dan cuenta que hay un loco que está tratando de destruir la cultura y para eso está destruyendo con una especie de láser las bibliotecas y nadie lo encuentra y lo arresta. En una de ésas arde la Biblioteca Central de Washington, la del Congreso, y entonces ya es el pánico total. Los escritores deciden muy inteligentemente llamar a Fantomas porque Fantomas, claro… ¿Y quiénes son los escritores que llaman a Fantomas? Alberto Moravia, Italo Calvino, Susan Sontag y yo, con una notita al pie que dice «Conocido escritor de tal y tal lugar» para que el lector se entere. (Nos habían dibujado muy bien, por cierto.) Estamos todos en el teléfono. Octavio Paz también, que dice: «Fantomas, tienes que venir en seguida, están quemando los libros». Yo mismo lo llamo: «Fantomas, tú eres nuestro amigo, ven». No se sabe por qué somos amigos de Fantomas, pero viene y hablamos con él. Dice: «No hay que preocuparse», y naturalmente abre las alas, se tira por la ventana y vuela. Va a París, hace una serie de investigaciones y descubre que en efecto hay un loco que odia la cultura y tiene un rayo poderoso. Fantomas se mete por la otra ventana y aniquila al individuo. ¡Gran alegría, la cultura está salvada! Todos le damos las gracias y termina la historieta.” (CORTÁZAR, 2013, p. 383)

Isso foi contado por Cortázar em uma de suas aulas de Literatura na Universidade americana de Berkeley durante o outono de 1980, onde os privilegiados puderam ouvir Cortázar falar do conto fantástico, do lúdico e do humor, da literatura social e também da sua obra pessoal. Na sétima aula trata os livros: RayuelaLibro de Manuel e Fantomas contra los vampiros multinacionales.

Segundo seu relato, a revista havia sido enviada a Paris por um amigo em visita ao México, que achou interessante e perguntando se ele sabia disso. Assim que leu, ficou pensando e chegou à seguinte conclusão:

“Caramba, ya que me meten como personaje sin pedirme autorización —lo cual en principio no está demasiado bien— yo también podría aprovechar ahora esta historieta sin la autorización de los editores y hacer mi propia versión de la cosa.” (CORTÁZAR, 2013, p. 385)

Foi então que ele foi pensando em uma outra história e para contá-la, recortou os quadrinhos que lhe interessavam e foi escrevendo um texto entre cada imagem, e com isso mudando completamente o sentido geral da história, entretanto, não deixando de ser um episódio do Fantômas, mas com Julio Cortázar como protagonista.

É importante frisar, de que mesmo tendo feito uma colagem multimídia com essa revista, a sua intenção original não era estética e sim política. Nas palavras do próprio Cortázar:

“Hace unos años yo robé una tira cómica mexicana que me incluía con gran desenvoltura como uno de los personajes de las aventuras de Fantomas, una especie de supermán idolatrado por millares de lectores populares, y con ayuda de amigos publiqué un falso equivalente, cuyo verdadero fin era denunciar a las transnacionales y poner en descubierto las más sucias tareas de la CÍA en América Latina.” (CORTÁZAR, 1984, p. 127)

Com esse depoimento Cortázar se apresenta como um escritor revolucionário e politicamente engajado ao ponto de pôr a sua arte a serviço de uma denúncia ideológica em um plano bem audacioso e único. Enquanto parte dos escritores latino-americanos se contentavam em assinar listas com apelos políticos, ele assume a sua posição e cria uma espécie de “zine” para divulga-la.

O Fantômas de Cortázar

Nessa versão, o personagem intitulado “narrador” encerra suas atividades no Tribunal Russel II[1] e está na estação central de Bruxelas, aguardando o trem para voltar a Paris. Em uma banca de revista, fica completamente pasmo ao ver que somente se vendem revistas mexicanas. Segue então um diálogo surrealista e de bom humor, entre a vendedora e o narrador, e este acaba por adquirir um exemplar do quadrinho Fantômas. E embarca no trem.

Logo ao sentar-se, depois de descrever os companheiros de viagem, abre a revista. Esta apresenta uma descrição da capa, e o “narrador” analisa os atributos da chamada: “Um episodio excepcional… arde la cultura del mundo… ¡Vea a Fantomas em apuros, entrevistándose com los más grandes escritores contemporáneos!” (CORTÁZAR, 1975, p. 12). E brinca com ideia de saber quem são os “maiores escritores contemporâneos”.

Logo na página seguinte temos a própria primeira página da revista original, como se o narrador interrompesse o seu pensamento de forma abrupta com a surpresa do início da história.

Figura 2 – Primeira página do Fantomas original


Mas parece que o início não atraiu tanto a sua atenção, porque ele desvia a leitura da revista para iniciar um diálogo truncado com uma bela loira platinada que se senta no banco em sua frente. Por esse diálogo se revela que a senhorita é italiana e nascida em Roma. Nisso ele mostra a revista em quadrinhos e aponta para o detalhe no primeiro quadrinho da quarta página, dizendo: “— Justamente en Roma están passando cosas terribles —dijo el narrador—, fíjese aqui.” (CORTÁZAR, 1975, p. 15)

Figura 3 - Quadrinho recortado da página 5 no original


Segue a resposta da companheira de viagem:

—Non e possibile! —se contorsionó la nena después de mirar fijamente al diariero que anunciaba las nefandas nuevas—. ¿Se da cuenta que además han destrozado la biblioteca?” (CORTÁZAR, 1975, p. 15)

Aqui há uma invasão diegética da história em quadrinhos na narrativa que ocorre no trem, mantida pelo “narrador” à medida em que ele impõe uma dinâmica de constante crítica e observação dos seus próprios atos e são essas diferentes linhas de forças, que geram o novo devir temporal. O tempo da história do Fantômas, torna-se simultâneo ao tempo do romance ilustrado de Cortázar, embora estejam separados por blocos de texto/imagem distintos, ou seja, são eventos que ocorrem em paralelo, mas funcionam como uma sucessão única.

Gerard Genette em seu Discurso da narrativa (1989), define a analepse externa como uma técnica narrativa na qual o narrador relata eventos que ocorreram antes da ação principal do enredo, mas que são relevantes para a compreensão da história. Ele também distingue a analepse externa da analepse interna, na qual os eventos são relatados por um personagem em vez de um narrador. Neste caso, Cortázar transforma os personagens dos quadrinhos em interlocutores da sua própria escritura, gerando uma analepse interna com elementos externos à obra.

É interessante também notar como Cortázar consegue gerar até mesmo o conteúdo do jornal (que de fato é somente iconográfico), na mente da sua interlocutora que evoca a personagem do desenho, também loira, que acompanha o “narrador” fazendo eco ao detalhe de que o painel representa um evento real e próximo, e ainda colabora com essa possibilidade, revelando mais detalhes da matéria em destaque, como a depredação da biblioteca, de uma forma indireta, como um “fato literário”, utilizando como referência a imagem da história em quadrinhos. E não se trata de uma anacronia, como uma discordância de duas ordens temporais, mas uma subordinação da História em quadrinhos a esse novo rearranjo da leitura, o que é uma situação, me parece, muito rara na literatura, tomando como parâmetro as ilustrações de romances e contos, que reforçam o conteúdo, mas não há um diálogo entre o personagem/autor e a ilustração como neste exemplo.

Após mais algumas dessas correlações entre a história em quadrinhos que ele lê e a conversa paralela com a moça italiana, o narrador chega a Paris. Já em sua residência, devidamente instalado enquanto toma um trago e lê a correspondência recebida na sua ausência, quando toca o telefone e a interlocutora revela-se como sendo Susan Sontag, ligando do hospital onde ela está por ter sido feriada nos joelhos por um terrorista ligado ao maníaco destrutor de livros. Essa cena volta a se repetir em outro momento, mas desta vez em uma ligação de Fantômas.

Portanto, de uma maneira “mágica”, o universo diegético da história do Fantômas se estabelece ao nível narrativo do personagem Cortázar, que mantém um diálogo com Susan Sontag sobre a queima de bibliotecas e livros, da forma mais normal, como se essa amizade fosse do mais corriqueiro e ela ainda faz questão de deixar o telefone do hospital para que ele a chame depois, assim que souber de mais alguma coisa. Se percebe que surge entre os dois uma cumplicidade e Cortázar assume o papel do investigador e ela a do “detetive de sofá” que vai montando as peças. Em seguida ele volta para a leitura da história em quadrinhos comprada na estação e se fixa justo na ordem dada por Fantômas para a assistente Libra:

Figura 4 – Fragmento recortado da página 11


A partir desse ponto, o narrador já se identifica plenamente com o escritor Julio Cortázar. Este ainda nota que a assistente prefere ligar para Alberto Moravia primeiro e ele será o penúltimo. Alguns detalhes chamam a tenção nesse quadro, primeiro a postura imperativa representada pela mão enluvada e em riste de Fantômas pra a assistente afrodescendente. Trata-se de uma associação que pode passar desapercebida para o leitor do Fantômas original, mas quando Cortázar a recorta, percebemos com toda a clareza o tipo de relação de poder que envolve o protagonista a quem ele quer, talvez assim, desmascarar.

Depois, o ponto alto é a cena em que Julio Cortázar recebe a ligação de Fantômas.

Figura 4 - Página completa montada por Cortázar:


Na continuação, Cortázar se aproveita dessa ameaça de “degolação” para começar as suas reflexões sobre as torturas levadas a cabo nos países latino-americanos: “Cosas así sucedían diariamente en Buenos Aires, en las provincias, con música de radio apagando los alaridos”. (CORTÁZAR, 1975, p.33)

Esta página não está montada assim no Fantômas original. Trata-se dos dois quadros finais da página 12 e a outra metade superior da página 13. Há que se considerar que ele fez essa montagem com uma tesoura e um só exemplar, foi sorte que as páginas estivessem com os quadros em partes diferentes e permitissem essa montagem.

Na sua versão, Cortázar brinca com essa inconsistência biográfica dele estar em Barcelona e não em Paris, onde ele reside, e aproveita para fazer uso do chamado “pacto de verossimilhança literária”, permitindo que o leitor aceite a história como real assim como está, de forma a ressaltar o “realismo fantástico” dos fatos que estão ocorrendo: Y aunque el narrador tenía la muy cuestionada costumbre de residir en París, se hizo presente desde Barcelona, lo cual lo halagó muchísimo porque esa especie de don de ubicuidad hubiera debido bastar como explicación de muchas cosas más bien insólitas que estaban sucediendo. (CORTÁZAR, 1975, p. 31)

Com isso Cortázar parece ironizar a falta de cuidado que os autores do original tiveram, mas a intenção real dessa “mudança de endereço” fica mais clara quando se comparam ambas as imagens do quadro e se nota um corte importante:

Figura 5 – Trecho recortado por Cortázar da página 14 no original


A dedução mais lógica é que essa menção tenha sido exigência da Editora Novaro para aproveitar um espaço de marketing com o público espanhol europeu. Cortázar não hesitou em cortar essa ligação justo na linha do bocal do telefone, causando até uma certa estranheza do ponto de vista estético, mas eliminando esse incômodo comercial.

Em seguida ele retorna a sua ligação com Susan Sontag no hospital de Los Angeles. Ela relata a ele a sua conversa com Fantômas por meio de mais um trecho da página do gibi original:

                   Figura 5 – Recorte com Susan Sontag

Segue-se um longo diálogo entre os dois por onde Susan revela que Fantômas está totalmente equivocado, que o criminoso Steiner não é mais que uma fachada e cabe a Cortázar, que ainda pode andar, começar essa nova investigação.

Depois, é apresentada a penúltima página do original, onde Fantômas discute com Steiner sobre a necessidade dos livros e da cultura. Essa cena termina com uma série de questionamentos em uma nova ligação de Cortázar para Susan Sontag, seleciono esse:

“¿Qué son los libros al lado de quienes los leen, Julio? ¿De qué nos sirven las bibliotecas enteritas si sólo les están dadas a unos pocos? También esto es una trampa para intelectuales. La pérdida de un solo libro nos agita más que el hambre en Etiopía, es lógico y comprensible y monstruoso al mismo tiempo. Y hasta Fantomas, que sólo es intelectual en sus ratos perdidos, cae en la trampa como acabamos de verlo.” (CORTÁZAR, 1975, p. 48)

Na sequência, o livro toma um tom mais combativo e sério, com imagens de vinhetas recortadas de jornais e revistas, como também infográficos levantando uma denúncia em um tom de jornalismo investigativo.

Figura 8 – Infográfico com denuncia das intervenções da CIA


Ele apresenta suas denúncias para o mesmíssimo Fantômas, que recua horrorizado por não ter percebido isso, e escapa novamente despedaçando mais uma janela da sua casa. Fantômas tem esse hábito desagradável de entrar e sair sempre despedaçando as janelas. No final, Cortázar apresenta uma deliciosa lista de escritores cujas obras agora Fantômas se comprometeu em resgatar, coisa que só foi possível porque Fantômas tem em seus computadores todos os livros do mundo:

“Por suerte, Fantomas no acostumbraba a hacer esperar a nadie mucho tiempo, y a las dos horas diversos amigos empezaron a llamar desde los lugares más antipódicos, Eduardo Galeano desde la calle Pueyrredón en Buenos Aires, Julio Ortega desde Correo en Lima, Daniel Waksman desde México, Cristina Peri Rossi desde Barcelona, José Lezama Lima desde La Habana, la lista fue larga y elocuente, ahora era Lelio Basso desde Roma, Julio Le Parc desde Montrouge, Caetano Veloso estupefacto en Sao Paulo, Carlos Fuentes fatigando a las telefonista mexicanas, y naturalmente Susan Sontag, que lloraba de risa frente a cosas como éstas.” (CORTÁZAR, 1975, p. 61)

Obviamente, não foi detalhado aqui todos os painéis usados por Cortázar na sua “adaptação” pois foge ao escopo desse artigo, somente relacionei os elementos que tocam o tema da intermidialidade entre quadrinhos e literatura, e por ser uma obra complexa em interrelações, ela pode servir para inúmeras outras leituras, especialmente nesse aspecto político em que a obra desemboca.  

Consideração finais

Voltando aos paralelos entre literatura e quadrinhos, temos aqui um híbrido que embora penda mais para a literatura, usufrui da narratologia dos quadrinhos no aspecto sequencial como MCCloud (1995) aponta em relação à importância da mente do leitor no pequeno espaço vazio, chamado no Brasil de “calha”, por onde se desenrola os eventos subjacentes da história. Nessas lacunas entre os painéis sucessivos reside a essência dos quadrinhos como Arte sequencial. Vejamos o seu próprio exemplo:

Figura 6 – Trecho de Scott McCloud (p. 68)


Cortázar, amplia a dimensão da “calha” e preenche esse espaço mental, com palavras que induzem o leitor em uma direção diferente da original, sua escritura dialoga com os quadrinhos em um ritmo “lateral”, batido através de marcas enunciativas em um tempo e espaços mistos, arranjados de tal maneira a levar o leitor por caminhos diversos, saltando do livro ao quadrinho e deste a uma prosa altamente politizada que representa a parte final do livro.

Embora o espaço narratológico literário tenha um esquema distinto dos quadrinhos, a estratégia adotada por Cortázar, conseguiu unir essas duas formas de expressão em uma única diegese, sem que o leitor estranhasse de forma efetiva, e para confirmar, mais uma vez cito o próprio autor falando da repercussão do seu quadrinho:

“Insistí en que lo editaran en forma de tira cómica y que se vendiera en los quioscos y se vendió en México por cientos de miles de ejemplares. Mucha gente lo compró creyendo que era una aventura de Fantomas de las otras y cuando se metió a leerlo se interesó y lo leyó hasta el final —lo supe porque el editor hizo un sondaje— y se enteraron de montones de cosas de las que realmente no habían tenido ninguna idea. Les cuento esto en el plano anecdótico porque sigo creyendo que nuestra tarea de escritores latinoamericanos puede ir a veces mucho más allá que escribir cuentos y novelas, aunque también es importante seguir escribiendo cuentos y novelas.” (CORTÁZAR, 2013, p. 385)

Portanto, a experiência teve uma repercussão prática, no sentido da intenção do Cortázar, bem maior do que a edição do Fantômas da Navaro. E o autor, mesmo não sendo artista gráfico, consegue por vias semelhantes aos artistas plásticos, ou seja, a colagem, moldar uma pequena obra mista e polifônica, abrindo caminho para uma nova classe de escrita, estamos frente não mais ao escritor, mas sim ao scriptor”, como diria Barthes, que é também um produtor cultural em um “espaço de muitas dimensões, no qual estão casados e contestados vários tipos de escrituras”.

A importância da experiência única de combinar literatura e história em quadrinhos vai além de simplesmente unir duas artes diferentes. Ela também nos permite refletir sobre os limites de cada arte e como a sua representação social pode ser ampliada. Ambos, literatura e histórias em quadrinhos, utilizam ficção com base cultural, onde a realidade é sempre a referência primária, mesmo que esteja presente de forma subjetiva, como em uma história em quadrinhos vendida em um quiosque de rodoviária.


 

Bibliografia

CORTÁZAR, J. Clases de literatura: Berkeley, 1980. Alfaguara, 2013

——————. Fantomas contra los vampiros multinacionales. Navaro, 1975

——————. Nicaragua tan violentamente dulce. Muchnik Editores, 1984.

GENETTE, G. Discurso da narrativaVega, 1989

MCCLOUD, S. Cómo se hace un cómic: el arte invisible. Ediciones B, 1995.

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A Intermidialidade no processo criativo de Julio Cortázar com o personagem Fantomas

Autores

DOI: 

https://doi.org/10.5433/2237-9126.2022v16n30p123

Resumo

Este artigo aborda a relação entre Literatura e História em quadrinhos de um ponto de vista diferente da adaptação, com o objetivo de apresentar uma obra construída nos limites de ambos os gêneros. Utilizou-se para tanto uma análise da obra "Fantomas contra los vampiros multinacionales" de Julio Cortázar e a sua relação com a HQ "Fantomas la amenaza elegante: La inteligencia em llamas". Como referencial teórico, utilizou-se estudos de Irina O. Rajewsky e Julia Kristeva, pensadores na linha bakhtiniana, sobre a intermidialidade e também de Scott McCloud acerca da narratologia dos quadrinhos. Como resultado temos a demonstração de uma obra mista e polifônica, com interesse tanto da pesquisa em Literatura comparada como em Quadrinhos ou Arte sequencial.

quarta-feira, 16 de outubro de 2024

Um som de trovão - Ray Bradbury (EM QUADRINHOS)

 Um som de trovão - Ray Bradbury








***


UM SOM DE TROVÃO

O anúncio na parede parecia tremular sob uma película de água quente. Eckels sentiu suas pálpebras estremecerem sobre seu olhar, e o anúncio queimava, na momentânea escuridão:


SAFARIS NO TEMPO, INC.

SAFARIS PARA QUALQUER ANO DO PASSADO

VOCÊ DIZ QUE ANIMAL.

NÓS O LEVAMOS LÁ.

VOCÊ O ABATE.


Uma flegma quente acumulou-se na garganta de Eckels; engoliu e empurrou-a para baixo. Os músculos ao redor de sua boca formaram um sorriso enquanto ele estendeu sua mão lentamente pelo ar, e naquela mão, balançava-se um cheque de dez mil dólares, para o homem atrás da escrivaninha.

— Este safári garante que eu volte vivo?

—  Não garantimos nada — falou o funcionário — exceto os dinossauros. — Voltou-se. — Este é o Sr. Travis, seu Guia, no safári ao passado. Ele vai dizer-lhe o que e aonde atirar. Se ele disser para não atirar, não se atira. Se desobedecer às instruções, há uma pesada multa de mais de dez mil dólares, mais um possível processo do governo, quando voltar.

Eckels olhou, através do amplo escritório, numa completa confusão disforme, de fios entrelaçados e caixas de aço zumbindo, para uma aurora que agora reluzia laranja, então prateada, e então, azul. Havia um som como uma descomunal pira queimando todo o Tempo, todos os anos e todos os calendários, todas as horas empilhadas e incendiadas.

Um toque da mão e esta queima, instantaneamente, se reverteria lindamente. Eckels lembrou-se literalmente das palavras da propaganda. De carvões e cinzas, da poeira e das brasas, como salamandras douradas, os velhos tempos, os anos jovens, podem saltar; rosas suavizando o ar; cabelo branco enegrecendo-se, rugas desaparecendo; tudo ,voltando totalmente à origem, fugir à morte, precipitar-se para o começo de tudo, o sol nascendo nos céus ocidentais, e pondo-se gloriosamente no leste, luas devorando-se a si mesmas no sentido oposto ao costumeiro, e tudo se sobrepondo, como caixas chinesas, coelhos em cartolas, tudo e todos retornando à morte viva, a morte da semente, a morte verde, ao tempo de antes do começo. O toque da mão poderia fazê-lo, o mero toque da mão.

—  Inacreditável. — Eckels respirava, com a luz da Máquina sobre seu rosto fino. — Uma verdadeira Máquina do Tempo. — Abanou a cabeça. — É de fazer pensar. Se a eleição tivesse ido mal ontem, eu poderia estar agora me afastando dos resultados. Felizmente Keith ganhou. Será um bom presidente para os Estados Unidos.

—  Sim — falou o homem por trás da mesa. — Temos sorte. Se Deutscher tivesse ganho, teríamos a pior ditadura. Há sempre um homem anti-tudo, um militarista, um anti-Cristo, anti-humano, anti-intelectual. O povo nos requisitou, sabe, como que brincando, mas a sério. Diziam que se Deutscher se tornasse presidente, queriam viver em 1492. Claro, não é o nosso negócio conduzir Fugas, mas organizar Safáris. De qualquer maneira, Keth é o presidente, agora. Tudo com que precisa preocupar-se agora é…

— Caçar meu dinossauro — Eckels acabou para ele.

— Um Tyranossaurus rex. O Lagarto Tirano, o monstro mais inacreditável de toda a história. Assine este termo. O que quer que aconteça com você, não somos responsáveis. Esses dinossauros são muito vorazes.

Eckels animou-se, nervoso. — Tentando assustar-me!

—  Francamente, sim. Não queremos que vá alguém que entre em pânico ao primeiro tiro. Seis lideres de safári foram mortos no ano passado, e uma dúzia de caçadores. Estamos aqui para dar-lhe a maior emoção que um caçador de verdade jamais almejou. Mandá-lo de volta sessenta milhões de anos, para pegar a maior caça de todos os tempos. Seu cheque ainda está aqui. Pode rasgá-lo.

O Sr. Eckels olhou para o cheque. Seus dedos retorceram-se.

—  Boa-sorte — falou o homem atrás da escrivaninha. — Sr. Travis, ele é todo seu.

Moveram-se silenciosamente, atravessando a sala, levando suas armas com eles, em direção à Máquina, rumo ao metal prateado e às luzes gritantes.

Primeiro, um dia e então uma noite e então um dia e então uma noite, e então era dia-noite-dia-noite-dia. Uma semana, um mês, um ano. uma década! 2 055 a. D., 2 019 a. D., 1 999! 1 957! Partida! A máquina rugia.

Puseram suas máscaras de oxigênio e testaram os intercomunicadores.

Eckels inclinou-se no assento estofado, rosto pálido, maxilar enrijecido. Sentia o tremor em seus braços, olhou para baixo e achou suas mãos firmes no novo rifle. Haviam quatro outros homens na Máquinas. Travis, o líder do Safári, seu assistente, Lesperance, e mais dois outros caçadores, Billings e Kramer. Sentavam-se olhando uns para os outros, e os anos ardiam à volta deles.

—  Estas armas podem dar conta de um dinossauro?   — Eckels sentiu sua boca dizendo.

—  Se os acertar direito — disse Travis pelo rádio do capacete. — Alguns dinossauros têm dois cérebros, um na cabeça e outro no fim da espinha. Ficamos longe destes. É abusar da sorte. Atire as duas primeiras vezes nos olhos, se puder, e cegue-os, e volte a atirar no cérebro.

A Máquina bramia. O Tempo era um filme passado ao contrário. Os sóis voavam e dez milhões de luas, atrás deles. — Pense só — disse Eckels. — Todos os caçadores que jamais viveram nos invejariam hoje. Isto faz a África parecer com o Illinois.

A Máquina desacelerou; seu grito caiu para um sussurro. A Máquina parou.

O sol parou no céu.

A névoa que envolvera a Máquina dissipou-se e estavam num tempo antigo, muito antigo mesmo, três caçadores e dois chefes de safári com suas armas metálicas sobre os joelhos.

—  Cristo ainda não nasceu — disse Travis. — Moisés ainda não foi à montanha, para falar com Deus. As pirâmides ainda estão na terra, esperando para serem recortadas e montadas. Lembrem-se disso. Alexandre; César; Napoleão; Hitler; nenhum deles existe.

O homem fez que sim.

— Aquilo. — Apontou o Sr. Travis — é a selva de sessenta milhões dois mil e cinqüenta e cinco anos antes do presidente Keith.

Mostrou o caminho de metal que cruzava o verde selvagem, sobre um amplo pântano, por entre fetos e palmeiras.

E aquele — disse — é o Caminho, colocado por Safáris no Tempo, para seu uso. Flutua a seis polegadas acima da terra. Não toca senão no máximo uma grama, flor ou árvore. É um metal antigravitacional. Seu propósito é evitar que vocês toquem, de qualquer maneira que seja, este mundo do passado. Fiquem no Caminho. Não saiam dele. Repito. Não saiam. Por qualquer razão que seja! Se caírem, serão multados. E não disparem em nenhum animal que não aprovemos.

— Por quê? — perguntou Eckels.

Sentaram-se, na floresta antiga. Gritos distantes de pássaros vieram com o vento, e o cheiro de alcatrão e de um velho oceano salgado, grama úmida, e flores da cor de sangue.

— Não queremos mudar o Futuro. Não pertencemos ao Passado. O governo não gosta de nós aqui. Temos que pagar muita propina para garantir nossa licença. A Máquina do Tempo é um negócio extremamente delicado. Sem saber, poderíamos matar um animal importante, um pequeno pássaro, uma barata; mesmo uma flor, assim destruindo um elo importante, numa espécie em evolução.

—  Isso não fica muito claro, — falou Eckels.

— Está bem — continuou Travis, — suponhamos que acidentalmente matemos um rato, aqui. Isso quer dizer que todos as futuras famílias deste rato, em particular, serão destruídas, certo?

— Certo.

— E todas as famílias das famílias, daquele rato! Com um pisão de seu pé, você aniquila primeiro um, então uma dúzia, então mil, um milhão, um bilhão de ratos, possivelmente!

— Então estarão mortos; e daí?

— E daí? — Travis torceu o nariz. — Bem, e as raposas que precisariam daqueles ratos para sobreviver? Para cada dez ratos a menos, morre uma raposa. Para cada dez raposas a menos, um leão morre de fome. Para cada leão a menos, insetos, abutres, infinitos bilhões de formas de vida são lançados ao caos e à destruição. Eventualmente, tudo recai no seguinte: cinqüenta e nove milhões de anos depois, um troglodita, um, de uma dúzia no mundo inteiro, vai caçar javalis ou tigres de dentes de sabre para comer. Mas você, amigo, pisou em todos os tigres daquela região. Pisando num só rato. Assim o troglodita morre de fome. E este homem das cavernas, note bem, não é qualquer um dispensável, não senhor! Ele é toda umanação futura. Dele, teriam saído dez filhos. E destes, mais cem, e assim por diante, até a civilização. Destruindo este único homem, destrói-se uma raça, um povo, toda uma história. É comparável a matar um neto de Adão. O pisão de seu pé, num rato, poderia principiar um terremoto, cujos efeitos poderiam abalar nossa terra e destinos pelo Tempo afora, até seus alicerces. Com a morte daquele troglodita, um bilhão de outros ainda não nascidos são mortos no útero. Talvez Roma nunca se erga sobre suas sete colinas. Talvez a Europa fique para sempre uma floresta espessa, e apenas a Ásia cresça, forte e saudável. Pise num rato e esmagará as Pirâmides. Pise num rato e deixará sua marca, como um Grand Canyon, pela Eternidade. A rainha Elizabete poderá nunca nascer. Washington poderá não cruzar o Delaware, poderá nunca haver Estados Unidos. Portanto, seja cuidadoso. Fique no caminho. Nunca pise fora!

—  Percebo — comentou Eckels. — Então não poderíamos nem tocar a grama?

—  Exato. Esmagar certas plantas poderia causar somas infinitesimais. Um erro mínimo seria multiplicado por sessenta milhões de anos, desmesuradamente. Claro, talvez nossa teoria esteja errada. Talvez o Tempo não possa ser alterado por nós. Ou talvez só possa ser alterado de maneiras sutis. Um rato morto aqui causa um desequilíbrio dos insetos ali, uma desproporção populacional mais tarde, uma colheita má mais adiante, uma depressão, fome, e finalmente uma mudança no temperamento social em países remotos. Algo muito mais sutil, como isso. Talvez algo ainda muito mais sutil. Talvez apenas uma respiração, um sussurro, um cabelo, um pólen no ar, uma mudança tão levezinha que se olhasse atentamente, não notaria. Quem sabe? Quem pode dizer que realmente sabe? Não sabemos. Estamos só adivinhando. Mas até que tenhamos certeza, se nossos passeios pelo Tempo podem fazer um barulhão ou um barulhinho na História, seremos cuidadosos.. Esta Máquina, este Caminho, suas roupas e corpo, foram esterilizados, como sabem, antes da viagem. Usamos estes capacetes de oxigênio de modo que não possamos introduzir bactérias nesta atmosfera primitiva.

— Como sabemos que animais abater?

—  Estão marcados com tinta vermelha — explicou Travis. — Hoje, antes da viagem, mandamos Lesperance aqui com a Máquina. Ele veio a esta época em particular e seguiu certos animais.

— Estudando-os?

— Isso — falou Lesperance. — Sigo-os por toda sua vida, observando quais vivem mais. Quantas vezes se acasalam. Poucas vezes. A sua vida é curta. Quando vejo que algum vai morrer com uma árvore caindo em cima dele, ou um que se afoga num poço de alcatrão, anoto a hora, minuto, e segundos exatos. Disparo um revólver de tinta. Deixa uma marca vermelha em seus flancos. Não podemos nos enganar. Então correlaciono com a chegada ao Caminho, de modo que encontremos o monstro a não mais de dois minutos de sua morte, inevitável. Desta forma, matamos apenas animais sem futuro, que nunca vão se acasalar de novo. Vê como somos cuidadosos?

—  Mas se esta manhã você voltou no tempo, deve ter cruzado conosco mesmos, nosso safári! Como nos saímos? Tivemos sucesso? Conseguimos voltar todos… vivos?

Travis e Lesperance entreolharam-se.

— Isso seria um paradoxo, — falou este último. — O tempo não permite esse tipo de confusão; um homem encontrando a si mesmo. Quando há o risco de tais situações, o tempo desvia-se. Como um avião passando por um vácuo. Sentiu a Máquina pular antes de pararmos? Éramos nós passando por nós mesmos, a caminho do Futuro. Não vimos nada. Não há meio de dizer se esta expedição teve sucesso; se pegamos nosso monstro, ou se todos nós, isto é, o senhor,Sr. Eckels, saiu vivo.

Eckels sorriu, palidamente.

— Parem com essa conversa — interrompeu Travis. — Todos de pé!

Estavam prontos para deixar a Máquina.

A selva era alta, a selva era larga, e a selva era todo o mundo, para sempre. Sons como música, e sons como tendas voando, encheram o ar, e eram pterodátilos planando com cavernosas asas cinzentas, morcegos gigantescos de delírio e febre noturna. Eckels, equilibrado no estreito Caminho, apontou seu rifle, bem-humorado.

— Pare! — falou Travis. — Não aponte nem mesmo por brincadeira, idiota! Se a arma dispara…

Eckels enrubesceu. — Aonde está nosso Tyranossaurus?

Lesperance checou seu relógio de pulso. — Logo à frente. Vamos estar no caminho dele em sessenta segundos. Atenção para a tinta vermelha! Não atire até que eu mande. Fique no caminho. Fique no Caminho!

Moveram-se adiante, pelo vento da manhã.

Estranho — murmurou Eckels. — Lá adiante, daqui a sessenta milhões de anos, fim das eleições. Keith presidente. Todos celebrando. E aqui estamos, perdidos num milhão de anos, e eles não existem ainda. As coisas que nos preocuparam por meses, por uma vida inteira, nem nasceram nem foram idealizadas, ainda.

—  Soltar as travas, todos! — ordenou Travis. Você dá o primeiro tiro, Eckels, Billings o segundo, e Kramer o terceiro.

— Já cacei tigre, javali, búfalo, elefante, mas agora, isto é incomparável — disse Eckels. — Estou tremendo como uma criança.

— Ah — fez Travis. Todos pararam.

Travis ergueu a mão. — À frente — falou, em voz baixa. — Na neblina. Lá está ele. Ali está Sua Majestade Real, agora.

A selva era ampla, e cheia de gorjeios, farfalhares, murmúrios e suspiros.

Subitamente, tudo cessou, como se alguém tivesse fechado a porta.

Silêncio.

Um som de trovão.

Da neblina, a cem jardas, vinha o Tyranossaurus rex.

— É ele — cochichou Eckels, — é ele… —Psss!

Ele veio sobre grandes pernas, oleosas, resilientes. Erguia-se a trinta pés, acima da metade das árvores, um grande deus do mal, dobrando suas delicadas garras de relojoeiro perto de seu peito oleoso, reptílico. Cada pata inferior era um pistão, mil libras de osso branco, mergulhadas em grossas cordas de músculos, revestidas por um brilho de uma pele pedregosa, como a malha de um terrível guerreiro. Cada coxa, uma tonelada de carne, marfim, e aço trançado. E da grande gaiola arquejante da parte superior do corpo, aqueles dois braços delicados pendurados para a frente, braços que poderiam erguer e examinar os homens como brinquedos, enquanto se dobrava o pescoço de serpente. E a cabeça mesmo, uma tonelada de pedra esculpida, erguida com facilidade contra o céu. Sua boca escancarava-se, expondo uma cerca de dentes como dardos. Seus olhos rolavam, ovos de avestruz, vazios de qualquer expressão, exceto fome. Fechava a boca num sorriso da morte. Corria, seus ossos pélvicos derrubando para os lados árvores e arbustos, seus pés, com garras, afundando-se na terra úmida, deixando marcas de seis polegadas de profundidade aonde quer que apoiasse seu peso. Corria com um passo deslizante de ballet, muito aprumado e equilibrado para suas dez toneladas. Movia-se, cansado, numa arena ensolarada, suas mãos lindamente reptilianas tateando o ar.

—   Ora, vejam — Eckels torceu a boca. — Poderia esticar-se e pegar a lua.

— Pssst! — fez Travis, nervoso. — Ele ainda não nos viu.

— Não pode ser morto. — Eckels pronunciou seu veredito, quieto, como se não pudesse haver discussão. Tinha avaliado a evidência, e era esta sua abalizada opinião. O rifle em sua mão parecia uma arma de brinquedo. — Fomos loucos de ter vindo. Isto é impossível.

— Cale-se! — silvou Travis.

— Pesadelo.

— Dê meia volta — comandou Travis. — Vá em silêncio para a Máquina. Podemos reembolsar-lhe metade de sua passagem.

— Não percebia como seria grande, — falou Eckels. — Avaliei mal, foi isso. E agora, quero desistir.

— Ele nos viu!

Lá está a tinta vermelha em seu peito!

O Lagarto Tirano levantou-se. Sua carne de armadura rebrilhava como mil moedas verdes. As moedas, com uma crosta de lama, ferviam. No lodo, pequenos insetos esperneavam, de modo que todo o corpo parecia retorcer-se e ondular, mesmo enquanto o monstro não se movia. Expirou. O cheiro de carne crua foi soprado pelos ermos.

—  Deixe-me sair daqui — disse Eckels. — Nunca foi como isto, agora. Eu sempre estava certo de que poderia sair vivo. Eu tinha bons guias, bons safáris, e segurança. Desta vez, enganei-me. Encontrei algo que me supera, e reconheço. É demais para eu enfrentar.

— Não corra — falou Lesperance. — Dê a volta. Esconda-se na Máquina.

— Sim, — Eckels parecia entorpecido. Olhou para seus pés, como que tentando fazê-los mover-se. Deu um grunhido, incapaz.

— Eckels!

Deu alguns passos, piscando, hesitante,

— Não por aí!

O Monstro, ao primeiro movimento, impulsionou-se para a frente com um grito terrível. Cobriu cem jardas em seis segundos. Os rifles ergueram-se rapidamente e iluminaram-se, com o fogo. Um vendaval da boca da besta engolfou-os na fedentina do lodo, e sangue envelhecido. O Monstro rugiu, dentes brilhando ao sol.

Eckels, sem olhar para trás, caminhou cegamente para a borda do Caminho, sua arma carregada frouxamente em seus braços, saiu do caminho, e andou, inadvertidamente, pela floresta. Seus pés afundaram em musgo verde. Suas pernas o carregavam, e ele se sentia só e afastado dos eventos lá atrás.

Os rifles dispararam de novo. O som perdeu-se no grito e no trovão do lagarto. O grande volume da cauda do animal lançou-se para cima, e para o lado. Árvores explodiram em nuvens de folhas e ramos. O Monstro torceu suas mãos de joalheiro para acariciar os homens, para dobrá-los ao meio, para esmagá-los, como frutinhas, para empurrá-los para seus dentes e sua garganta ruidosa. Seus olhos, quais rochedos, estavam ao nível dos homens. Viram-se espelhados. Dispararam nas pálpebras metálicas e na luminosa íris.

Como um ídolo de pedra, como uma avalanche de montanha, oTyranossaurus caiu. Trovejando, agarrou árvores, e puxou-as consigo. Agarrou e cortou o Caminho. Os homens precipitaram-se para trás, e para longe. O corpo abateu-se, dez toneladas de carne fria e pedra. Os rifles dispararam. O Monstro brandiu sua cauda blindada, crispou suas mandíbulas de serpente, e imobilizou-se. Uma fonte de sangue jorrava de sua garganta. Em algum lugar lá dentro, um saco de fluido estourou. Borbotões nauseantes inundaram os caçadores. Lá estavam vermelhos, brilhantes.

O trovão dissipou-se.

A selva estava silenciosa. Depois da avalanche, uma paz verde. Depois do pesadelo, o amanhecer.

Billings e Kramer praguejavam pesadamente, com seus rifles ainda fumegando.

Na Máquina do Tempo, face abatida, Eckels tremia. Tinha conseguido voltar ao caminho, e subira na Máquina.

Travis chegou, olhou para Eckels, pegou gaze de algodão e, virou-se para os outros, que estavam sentados sobre o Caminho.

— Limpem-se.

Limparam o sangue de seus capacetes. Começaram a resmungar, também. O Monstro jazia ali como uma montanha de carne. Dentro dele, podia-se ouvir os sopros e murmúrios, enquanto seus recessos iam morrendo, os órgãos parando de funcionar, líquidos circulan do um último instante, de saco para a bolsa, para vesícula, tudo desligando-se, parando para sempre. Era como ficar perto de uma locomotiva acidentada, ou uma escavadeira a vapor, no momento de desligar, com todas as válvulas sendo desativadas. Ossos estalavam; a tonelagem de sua própria carne, desequilibrada, peso morto, quebrava os delicados braços, do lado de baixo. A carne se assentava aos tremores.

Outro estalido. Mais acima, um enorme galho de árvore partiu de sua pesada ancoragem, caiu. Golpeou certeiramente a fera morta.

— Pronto. — Lesperance verificou seu relógio. — Bem na hora. Essa era a grande árvore que deveria cair e matar este animal,  originalmente. — Olhou para os dois caçadores. — Querem tirar a foto de troféu?

— Quê?

— Não podemos levar o troféu para o Futuro. O corpo deve ficar aqui, aonde deveria originalmente morrer, de modo que os insetos, pássaros, e bactérias possam devorá-lo, como devem. Tudo equilibrado. O corpo fica. Mas podemos tirar uma fotografia de vocês a seu lado.

Os dois homens fizeram força para pensar, mas desistiram, abanando as cabeças.

Deixaram-se guiar ao longo do Caminho de metal. Afundaram cansados, nos assentos da Máquina. Olharam de novo para o Monstro arruinado, o montículo em estagnação, aonde já estranhos pássaros reptilianos e insetos dourados estavam ocupados com a fumegante armadura.

Um som no chão da Máquina do Tempo deixou-os tensos. Eckels estava lá, tremendo.

— Lamento muitíssimo — disse.

— Levante-se! — gritou Travis. Eckels levantou-se.

— Vá para o Caminho sozinho — falou Travis, com seu rifle apontado. Não vai voltar para a Máquina. Vamos deixá-lo aqui!

Lesperance agarrou o braço de Travis. — Espere…

— Fique fora disto! — Travis desvencilhou-se de sua mão. — Este louco quase matou-nos. Mas isso não é tanto assim. Vejam seussapatos! Vejam! Ele saiu do Caminho. Isso nos arruína! Seremos multados! Milhares de dólares de seguro! Garantimos que ninguém deixa o Caminho, e ele o deixou. Ora, o louco! Terei de informar o Governo

Poderão cancelar nossa licença para viajar. Quem sabe o que ele fez ao Tempo, à História!

— Calma, tudo o que ele fez foi pisar em alguma sujeira.

— Como saber? — gritou Travis. — Não sabemos nada! É um mistério! Saia, Eckels!

Eckels mexeu em sua camisa. — Pago qualquer coisa. Mil dólares!

Travis olhou para o talão de cheques de Eckels e cuspiu. — Saia. O Monstro está perto do Caminho. Afunde os braços até os cotovelos na boca dele. Então poderá voltar conosco.

— Isto é irrazoável!

— O Monstro está morto, seu idiota. As balas! As balas não podem ser deixadas para trás. Elas não pertencem ao Passado; poderão mudar alguma coisa. Aqui está a minha faca. Cave-as!

A selva estava viva de novo, cheia de antigos tremores e do barulho dos pássaros. Eckels voltou-se lentamente para olhar o monte de carniça primordial, aquela montanha de pesadelos e terror. Depois de um longo tempo, como um sonâmbulo, arrastou-se ao longo do Caminho.

Voltou, tremendo, cinco minutos depois, com seus braços ensopados e vermelhos até os cotovelos. Estendeu as mãos. Cada uma segurava algumas balas de aço. Então caiu e ficou lá, imóvel.

— Você não precisava obrigá-lo a isso — comentou Lesperance.

— Não? É cedo ainda para dizer. — Travis tocou o corpo, com o pé. — Viverá. Da próxima vez não vai sair para caçar este tipo de caça. OK. — Ergueu o polegar para Lesperance. — Dê a partida. Vamos para casa.

1492 . 1776 . 1812 .

Limparam suas mãos e faces. Trocaram de roupa. Eckels estava de pé de novo, mudo. Travis olhou para ele por dez minutos.

— Não olhe para mim, — exclamou Eckels. — Não fiz nada.

— Quem pode saber?

— Apenas saí do Caminho, foi tudo, um pouco de lama em meus sapatos; que quer que eu faça? Que me ajoelhe e reze?

— Talvez precisemos disso. Estou lhe avisando, Eckels! Posso matá-lo, ainda. Minha arma está engatilhada.

— Estou inocente. Não fiz nada! 1999 . 2000 . 2055 .

A Máquina parou.

— Saia — ordenou Travis.

A sala lá estava, tal como quando saíram. Mas não exatamente a mesma. O mesmo homem atrás da mesma escrivaninha. Mas o mesmo homem não parecia estar sentado exatamente atrás da mesma escrivaninha.

Travis olhou em volta, depressa. — Tudo em ordem por aqui? — foi logo perguntando.

— Claro. Bem vindos ao lar!

Travis não relaxou. Parecia estar olhando para os próprios átomos do ar, e para o modo pelo qual o sol entrava pela janela alta.

— OK, Eckels, saia. E nunca mais volte. Eckels não podia mover-se.

— Ouviu-me, — falou Travis. — Para o quê está olhando? Eckels ficou, cheirando o ar, e havia algo no ar, uma substância tão tênue, tão sutil, que apenas um fraco aviso de seus sentidos subliminares avisavam-lhe que estava ali. As cores, branco, cinza, azul, laranja, na parede, na mobília, no céu, pela janela, eram… eram… E havia umasensação. Sua carne crispava-se. Ficou bebendo aquela estranheza com os poros de seu corpo. Em algum lugar, alguém devia estar soprando naqueles apitos que só os cães podem ouvir. Seu corpo gritava silenciosamente, em resposta. Além deste aposento, além desta parede, além deste homem, que não era exatamente o mesmo homem que estava sentado àquela mesa, que não era bem a mesma mesa… estava todo um mundo de ruas e gente. Que espécie de mundo era agora, não havia como dizer. Ele podia senti-los mover-se ali, além das paredes, quase, como peças de xadrez por um vento quente…

Mas a coisa mais imediata era o anúncio pintado na parede do escritório, o mesmo que havia lido hoje ao entrar. De alguma forma, o anúncio havia mudado:


SEFARIS NU TENPO, INC.

SEFARIS PRA QUALQUER ANO PAÇADO.

CÊ DIS QUI ANIMAU.

NÔIS LEVAMOS CÊ LÃ.

CÊOABAT.


Eckels sentiu-se caindo numa cadeira. Ficou mexendo, como louco, na lama em suas botas. Ergueu um pedaço de algo enlameado, tremendo. — Não, não pode ser, não uma coisinha assim, não!

Embebida na lama, brilhando em verde e dourado e preto, havia uma borboleta, muito bela, e muito morta.

Não uma coisa assim! Não uma borboleta! — gritou Eckels.

Caiu ao chão, uma coisa exótica, pequena, que poderia desmanchar equilíbrios e derrubar uma fila de dominós pequenos, e então grandes dominós, e então dominós gigantes, por todos os anos através do Tempo. A mente de Eckels turbilhonava. Não podia mudar as coisas. Matar uma borboleta não podia ser tão importante! Ou poderia?

Seu rosto estava frio. Sua boca hesitava, ao perguntar: — Quem… quem ganhou a eleição presidencial ontem?

O homem atrás da escrivaninha riu-se. — Está brincando? Sabe muito bem. Deutscher, claro! Quem mais? Não aquele maluco pusilânime do Keith. Temos um homem de ferro, agora, um homem de peito! — O funcionário parou. — O que há de errado?

Eckels gemeu. Caiu de joelhos. Examinava a borboleta dourada com dedos trêmulos. — Não podemos — implorava ao mundo, a si mesmo, aos funcionários, à Máquina. — Não podemos levá-la de volta, não podemos fazê-la viver de novo? Não podemos recomeçar? Não poderíamos…

Não se moveu. Olhos fechados, esperou, abalado. Ouviu Travis ofegando, na sala; ouviu Travis apontar o rifle, destravá-lo.

Houve um som de trovão.

***

Ray Bradbury

quinta-feira, 10 de outubro de 2024

A TORTURA DA ESPERANÇA em Quadrinhos — Villiers de l’Isle-Adam


VILLIERS DE L’ISLE-ADAM

Philippe-Auguste-Mathias, conde de Villiers de l’Isle-Adam (1840-1889), pertencia a uma das famílias mais antigas da aristocracia francesa; contava entre seus antepassados um marechal da França e o primeiro dos grão-mestres da Ordem de Malta. Da antiga ilustração apenas lhe restava o esplendor do nome: passou a vida em profunda miséria, suportada, aliás, com orgulho e dignidade. “A pobreza colou-se-lhe aos ossos como a própria pele, e seus melhores amigos, seus admiradores mais fervorosos nunca puderam arrancar-lhe esse vestuário natural.”

Era Villiers de l’Isle-Adam um exilado dentro do seu século; vivia em estado de perpétua revolta contra a realidade. Conquanto houvesse abandonado a poesia depois de um único volume, sua obra influenciou fortemente os poetas simbolistas, que viam nela um protesto contra o realismo. A atmosfera de mistério, de sonho e de alucinação que emana de seus contos, romances e dramas dominava-lhe também a personalidade. Esta exerceu nos seus amigos estranha fascinação, como o demonstram os versos que lhe consagrou Verlaine em uma de suas “Dedicatórias”, e as reminiscências de Mallarmé, de uma solenidade e de um requinte hieráticos:

Sem embargo de sua importância na história literária, Villiers de l’Isle-Adam não conseguiu nenhuma popularidade em vida, e, morto, continua a ter um grupo de fiéis relativamente reduzido. Seus contos enchem vários volumes: Contos cruéis, Histórias insólitas, Novos contos cruéis, Histórias soberanas. Todos apresentam um todo inconfundível, apesar da variedade dos gêneros: sátiras ao progresso, histórias sobrenaturais, fantasmagorias e pesadelos, casos grotescos e absurdos, retratos de maníacos; em todos, por trás do estilo artisticamente equilibrado, sente-se uma tensão extrema, um exagero doentio, uma espécie de desequilíbrio íntimo.

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A TORTURA DA ESPERANÇA









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A TORTURA DA ESPERANÇA


— Oh! uma voz, uma voz, para gritar!...

Edgar Poe, “O poço e o pêndulo”


 


Sob os porões do Provisor de Saragoça, ao cair de uma tarde de outrora, o venerável Pedro Arbuez d’Espila, sexto prior dos dominicanos de Segóvia, terceiro Grande-Inquisidor de Espanha — seguido de um fra198 redentor (verdugo-mor) e precedido de dois familiares do Santo Ofício, estes empunhando lanternas, desceu a um calabouço perdido. Rangeu a fechadura de uma porta maciça: penetraram um mefítico in-pace, onde a claraboia da parte superior deixava vislumbrar, entre argolas chumbadas às paredes, um cavalete enegrecido de sangue, um esquentador, um cântaro. Sobre uma camada de esterco, e sustentado por peias, a golilha de ferro no pescoço, via-se sentado, com ar de espanto, um homem maltrapilho, de idade já indistinta.

Esse prisioneiro não era outro senão o rabi Aser Abarbanel, judeu aragonês, que — acusado de usura e de impiedoso desdém aos pobres — vinha sendo, desde mais de um ano, cotidianamente submetido a torturas. Entretanto, como “a sua cegueira fosse tão dura quanto o seu couro”, recusara-se à abjuração.

Orgulhoso de uma filiação muitas vezes milenária, ufanando-se de seus remotos antepassados — pois todos os judeus dignos de tal nome são ciosos do próprio sangue —, ele descendia talmudicamente de Otoniel, e, por conseguinte, de Ipsiboë, esposa deste último juiz de Israel: circunstância que contribuíra para mantê-lo sem desfalecimentos no auge dos incessantes suplícios.

Assim, foi com os olhos cheios de lágrimas, pensando que essa alma tão firme se furtava à salvação, que o venerável Pedro Arbuez d’Espila, aproximando-se do rabino tremente, pronunciou as seguintes palavras:

— Regozijai-vos, filho meu: vossas provações terrestres vão ter fim. Se, em face de tamanha obstinação, eu tive de permitir, com o coração em pranto, que se empregassem muitos rigores, minha tarefa de correção fraterna tem os seus limites. Sois a figueira intratável que, tantas vezes encontrada sem fruto, se arrisca a ficar estéril... porém só a Deus cumpre deliberar acerca de vossa alma. Quem sabe se a infinita clemência não luzirá para vós no instante supremo? Devemos esperá-lo! Há exemplos... Assim seja! — Portanto, descansai em paz esta noite. Amanhã, tomareis parte no auto de fé: vale dizer que sereis exposto ao quemadero, braseiro premonitório da eterna chama: ele só queima, bem o sabeis, meu filho, a distância, e a Morte leva pelo menos duas horas (às vezes três) para chegar, em virtude dos panos molhados e gelados com que nós temos o cuidado de preservar a fonte e o coração dos holocaustos. Sereis 43 apenas. Considerai que, colocado no último lugar, tereis o tempo necessário para invocar a Deus, para oferecer-lhe esse batismo de fogo que é do Espírito Santo. Esperai, pois, na Luz, e adormecei.

Ao terminar esta prática, d. Arbuez, tendo, com um sinal, feito desacorrentar o infeliz, abraçou-o ternamente. Depois foi a vez do fra redentor, que, baixinho, rogou ao judeu lhe perdoasse o que ele o fizera padecer no intento de o redimir; depois, abraçaram-no os dois familiares, cujo beijo, através das suas cogulas, foi silencioso. Concluída a cerimônia, deixaram o cativo, sozinho e atônito, nas trevas.

Com a boca seca, a face idiotizada pelo sofrimento, o rabi Aser Abarbanel considerou, desde logo, sem atenção precisa, a porta fechada. — “Fechada?...” No íntimo de sua alma, em meio aos seus confusos pensamentos, esta palavra despertava um devaneio: é que ele entrevira, um instante, o clarão das lanternas na fenda de entre as muralhas daquela porta. Uma ideia mórbida de esperança, suscitada pela prostração do cérebro, comoveu-lhe o ser. Arrastou-se em direção à insólita coisa aparecida! E, muito suavemente, deslizando um dedo, com demoradas precauções, na pequena abertura, puxou sobre si a porta... Que estupefação! por um acaso extraordinário, o familiar que o refechara dera a volta à grossa chave um pouco antes do baque de encontro às couceiras de pedra! De maneira que, não havendo a enferrujada lingueta entrado na porca do parafuso, a porta rodou novamente no vão.

O rabino arriscou um olhar à parte de fora.

Graças a uma espécie de escuridão lívida, distinguiu, no primeiro instante, um semicírculo de paredes terrosas, varadas por espirais de degraus — e, dominando, diante dele, cinco ou seis degraus de pedra, uma espécie de pórtico negro que dava acesso para um vasto corredor, do qual só era possível entrever, de baixo, os primeiros arcos.

Estirando-se, pois, rastejou até o rés desse limiar. — Sim, era sem dúvida um corredor, mas extremamente longo! Uma luz lívida, um clarão de sonho o iluminava: lâmpadas, suspensas das abóbadas, azulavam, a espaços, a cor embaciada do ar: o fundo longínquo era apenas sombra. Nem uma porta, lateralmente, em toda a extensão! Somente de um lado, à sua esquerda, respiradouros, de grades cruzadas, em desvãos da parede, deixavam passar um crepúsculo — que devia ser o da tarde, em virtude das estrias vermelhas que, de longe em longe, cortavam o lajeado. E que silêncio medonho!... Entretanto, além, nas profundezas daquelas brumas, uma saída podia dar para a liberdade! A vacilante esperança do judeu era tenaz, pois que era a última.

Assim, sem hesitar, arriscou-se sobre as lajes, cosendo-se à parede dos respiradouros, forcejando por se confundir com a tenebrosa cor das longas muralhas. Avançava lento, arrastando-se de bruços — e sopitando o ímpeto de gritar quando uma chaga, recém-avivada, o pungia.

Súbito, o rumor de uma sandália que se aproximava chegou-lhe aos ouvidos no eco dessa aleia de pedra. Um estremecimento sacudiu-o todo, a ansiedade o sufocava; escureceu-se-lhe a vista. Vamos! estava tudo acabado, certamente! Encolheu-se, de cócoras, num desvão, e, com a morte na alma, esperou.

Era um familiar apressado. Passou rápido, empunhando um arranca-músculos, com a cogula abaixada, e desapareceu. A comoção de que o rabino acabara de experimentar o aperto havia-lhe como que suspendido as funções vitais, deixando-o, cerca de uma hora, impossibilitado de fazer um movimento. No receio de que se lhe agravassem as torturas, caso fosse apanhado, veio-lhe a ideia de retornar ao seu calabouço. Mas, no íntimo da alma, a velha esperança lhe cochichava esse divino talvez, que reconforta nas piores tribulações! Produzira-se um milagre! Já não havia dúvidas! E ele pôs-se de novo a rastejar para a evasão possível. Extenuado de sofrimento e de fome, trêmulo de angústias, avançava! — E aquele sepulcral corredor parecia alongar-se misteriosamente! E o rabino, sempre avançando, olhava sem cessar para a sombra, lá longe, onde devia haver uma saída salvadora.

Oh! oh! Outra vez o ruído de passos, agora, porém, mais lentos e mais sombrios. As formas brancas e negras, de longos chapéus de abas reviradas, de dois inquisidores, apareceram-lhe, emergentes do ar embaciado, lá no fundo. Conversavam em voz baixa e pareciam debater um ponto importante, pois as suas mãos se agitavam.

A essa visão, o rabino Aser Abarbanel fechou os olhos: bateu-lhe o coração a ponto de o matar; seus trapos foram penetrados de um frio suor de agonia; pasmado, imóvel, estendido ao longo da parede, sob a luz de uma lamparina, imóvel, implorava o Deus de Davi.

Ao chegarem diante dele, detiveram-se os dois inquisidores sob a claridade da lâmpada — por um acaso oriundo, sem dúvida, da sua discussão. Um deles, escutando o interlocutor, olhou casualmente o rabino! E, debaixo desse olhar, cuja expressão distraída no primeiro instante não compreendeu, julgava o desgraçado sentir as cálidas tenazes morderem-lhe ainda a pobre carne; ia, pois, voltar a ser uma queixa e uma chaga! Desfalecendo, sem poder respirar, as pálpebras a bater, tremia, ao aflorar daquelas vestes. No entanto — coisa ao mesmo tempo estranha e natural —, os olhos do inquisidor eram, a toda a evidência, os de um homem fundamente preocupado com o que vai responder, absorvido pela ideia do que ouve, estavam fixos — e dir-se-ia olharem o judeu sem o ver!

Com efeito, ao cabo de alguns minutos os dois sinistros discutidores prosseguiram seu caminho, a passos lentos, e sempre conversando em voz baixa, em direção à encruzilhada donde saíra o prisioneiro; NÃO O TINHAM VISTO!... De tal modo que, no horrível desconcerto das suas sensações, o rabino teve o cérebro atravessado por esta ideia: “Estaria eu morto, de sorte que não me viram?” Uma horrenda impressão arrancou-o da letargia: fitando a parede, bem próxima de seu rosto, cuidou ver, ante os seus, dois olhos ferozes que o espreitavam!... Sacudiu a cabeça para trás num transe desvairado e súbito, com os cabelos arrepiados!... Mas — não! não. Sua mão acabava de conhecer a realidade, tateando as pedras: era o reflexo dos olhos do inquisidor que ele ainda tinha nas pupilas, e que refrangera sobre duas manchas da parede.

Para a frente! Cumpria apressar-se em direitura a esse fim que ele imaginava (doentiamente, decerto) ser a libertação! em direitura àquelas sombras de que ele se achava apenas à distância de uns trinta passos. E continuou, mais depressa, sobre os joelhos, sobre as mãos, sobre o ventre, a sua via dolorosa; e dentro em pouco entrava na parte escura daquele corredor medonho.

De repente o miserável sentiu frio sobre as mãos, que apoiava nas lajes; isto provinha de uma forte corrente de ar que se insinuava por sob uma pequena porta em que terminavam as duas paredes. Meu Deus! se aquela porta desse para o mundo exterior! Apoderou-se de todo o ser do lastimável evadido uma vertigem de esperança! Examinava-a, de alto a baixo, sem lograr distingui-la nitidamente em virtude da escuridão que o cingia. Tateava: nenhum ferrolho, nenhuma fechadura. — Uma aldraba!... Levantou-se: a lingueta cedeu sob o seu polegar; a silenciosa porta rodou ante ele.

— ALELUIA!... — murmurou, num suspiro imenso, de ação de graças, o rabino, agora em pé na soleira, ante o que se lhe desvendava aos olhos.

A porta se abrira sobre os jardins, sob uma noite estrelada! sobre a primavera, a liberdade, a vida! Tudo isso dava para o campo próximo, prolongando-se no rumo das sierras, cujas sinuosas linhas azuis se perfilavam de encontro ao horizonte — ei-la, ali, a salvação! — Oh! fugir! Via-se a correr toda a noite sob aqueles bosques de limoeiros cujo perfume lhe chegava às narinas. Uma vez nas montanhas, estaria salvo! Respirava o bom ar sagrado; o vento reanimava-o, seus pulmões ressuscitavam! Ouvia, no seu coração dilatado, o "Veni foras" de Lázaro! E, para bendizer mais uma vez o Deus que lhe concedia tal misericórdia, estendeu os braços diante de si, erguendo os olhos ao firmamento. Foi um êxtase.

Nisto, julgou ver a sombra de seus braços voltar-se sobre ele mesmo; julgou sentir que esses braços de sombra o cingiam, o enlaçavam — e que ele era ternamente apertado a um peito. Realmente, um vulto alto se achava ao pé do seu. Confiante, baixou os olhos para esse vulto — e ficou ofegante, enlouquecido, os olhos apagados, trêmulos, as bochechas a inchar, e babando de estupefação.

Horror! estava nos braços do Grande-Inquisidor em pessoa, do venerável Pedro Arbuez d’Espila, que o contemplava, com os olhos cheios de grossas lágrimas e um ar de bom pastor ao encontrar sua ovelha tresmalhada!...

O sombrio sacerdote estreitava ao coração o desgraçado judeu com um impulso de caridade tão fervente que as pontas do cilício monacal picavam, sob a cogula, o peito do dominicano. E, enquanto o rabi Aser Abarbanel, com os olhos revolvidos sob as pálpebras, estertorava de angústia entre os braços do ascético d. Arbuez e compreendia confusamente que todas as fases da noite fatal não passavam de um suplício previsto, o da Esperança!, o Grande-Inquisidor, com um acento de pungente censura e o olhar consternado, murmurava-lhe ao ouvido, com hálito ardente e alterado pelos jejuns:

— Como, meu filho! Na véspera, talvez, da salvação... queríeis deixar-nos!

***

Introdução e conto extraído de: Mar de histórias: antologia do conto mundial: o realismo: volume 5 / Aurélio Buarque de Holanda Ferreira e Paulo Rónai (tradução e organização). - 5.ed. - Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2013.

Desenhos não creditados. Fonte VIDAS ILUSTRES - Ano XII - N° 164 - 15 de junio de 1967. ("VILLIERS DE L'ISLE ADAM").—© Copyright, 1967 — México.

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